quinta-feira, 24 de março de 2011

RESENHA
CRIANÇAS, INFÂNCIAS E EDUCAÇÃO
           
            A autora inicia o texto afirmando que a criança e a infância  são conceitos dependentes  do meio cultural e social, e sobre a transformação de ambos ao longo da história.
            E tudo o que se relaciona à criança foi se modificando à mercê da dinâmica econômica e social.
            Galvão cita Freitas e Kuhlmann Jr. (2002, p. 7) quando dizem que na tentativa de compreendermos a criança e a infância, temos opções: um olhar de fora, ou seja, a partir dos nossos próprios conceitos a respeito de tudo que se relaciona à criança; a segunda opção, seria vê-la como o outro num movimento de compreensão mais aprofundada sobre essa fase da vida.
            Entretanto, seja qual for a opção, haverá impacto profundo para a criança, bem como no seu modo de viver a infância, visto que isso envolve o lugar social da criança.
Isso também serve para entender a prática educativa das instituições de educação infantil desses locais. Portanto, a compreensão de criança e infância tanto servem para a produção de práticas educativas, como também alimentam determinadas concepções.
            Ao longo das épocas haverá discursos reveladores das idéias e expectativas acerca da criança.
            Ariés (1981), discorre sobre o tratamento dispensado às crianças, desde a Idade Média até os tempos modernos e demonstra como o conceito de infância tem se modificado através dos séculos, onde ora a criança era tratada como um “bibelô”, ora como um ser incompleto.
            De acordo com Ariés o “sentimento de infância “ não significa afeto e nem desprezo pelas crianças, mas a consciência das particularidades que distinguem uma criança de uma adulto. Na Idade Média, ainda cedo, a criança era integrada à rotina dos adultos, pois a civilização medieval não tinha idéia da educação.
            Segundo Ariés, as primeiras manifestações do “sentimento de infância” surgiram na família na forma de paparicação nos primeiros anos de vida.
            O autor enfatiza o surgimento o desagrado dos homens da lei em relação à paparicação à criança, que rejeitavam a idéia de criança como brinquedos encantadores, pois viam uma necessidade de preservar e disciplinar essas pequenas e frágeis criaturas de Deus. Nasce daí um outro sentimento de infância, pautado na moralidade e na disciplina, onde a criança passou a ser vista como um ser inocente, frágil, imaturo e incompleto, devendo, portanto, ser preparado para a vida adulta. Então a moralidade e a racionalidade tornaram-se o centro da educação das crianças.
            E durante todo o século XX esse sentimento de infância dominou com a concepção de uma quarentena, antes de a criança entrar no mundo adulto. No início dos tempos modernos, coube à escola essa função. Dessa forma, a instituição escolar passou a ser imprescindível à sociedade, oferecendo educação moral e intelectual às crianças.
            Na visão de Ariés, a noção de infância foi se impondo de tal forma numa concepção hegemônica que para a sociedade todas as crianças eram iguais: um adulto em formação. E coube à escola transformá-las em alunos, uniformizados, fora do convívio social, preparando-as moral e intelectualmente para serem adultos.
            A autora do texto cita Postman (2002) quando ele defende a tese de que a infância tal qual a conhecemos está desaparecendo e que no percurso da história da infância são identificados três grandes momentos: a invenção da infância com o advento da tipografia e o desaparecimento da infância com o surgimento do telégrafo.
            Postman destaca a tipografia como criadora de um mundo simbólico que exigiu uma nova concepção de adulto, pois foi com ela que surgiu um mundo permitido aos letrados; onde as crianças foram deixadas para trás. Depois disso, para se tornar adultos, os jovens teriam de aprender a ler e a escrever e para isso acontecer, a educação seria fundamental. E houve a reinvenção das escolas pela civilização européia, transformando a infância numa necessidade.
            A autora se remete às colocações de Dalhberg, Moss e Pence, quando dizem que as crianças foram colocadas dentro de um sistema onde tanto elas como suas habilidades são medidas.
            Ela toma Postman como referência para falar da forma como cada nação compreendeu a infância de sua própria forma e integrou_a à sua realidade de acordo com o cenário, seja econômico, religioso ou intelectual.
            Segundo Dahlberg, Moss e Pence , a educação das crianças estão baseadas na previsibilidade e padronização, com um caminho a ser traçado pela criança com um ponto de partida e outro de chegada, mas já determinado pelo adulto. Tendo como ponto de partida a preparação da criança para a vida adulta e a entrada no mercado de trabalho na  estrutura econômica e social vigente. Esses autores rejeitam a idéia da criança como reprodutor de conhecimento, identidade e cultura e fazem a opção por compreendê-la como um co-construtor de conhecimento, identidade e cultura.
            Os autores alertam para o fato da criança vir despertando a atenção dos empresários, visto que, bem assistida e bem alimentada, constitui-se uma força de trabalho estável e qualificada. Sendo assim, o papel da escola é prepará-la a para o ensino obrigatório; entretanto, vale ressaltar que as crianças estão sendo atendidas e assistidas.
            Galvão nos conduz ao pensamento de Imbert quando diz que a criança não é vista em sua inteireza, mas de forma isolada: inteligência, sexualidade, motricidade, etc. Isso descaracteriza a criança como alguém com aptidão para a autonomia e para a independência.
            Dahlberg, Moss e Pence destacam a concepção da criança como suprimento do mercado de trabalho, surgida com a inserção da mulher - mãe - no mercado de
trabalho. Assim, a responsabilidade pelos cuidados com a criança seria de outra pessoa, e não da mãe, pois essa estaria no mercado de trabalho suprindo a mão de obra.
            Percebe-se, assim, os primeiros cuidados, não como algo primordial para a criança, mas como uma forma de manter sua mãe produtiva para atender às demandas do mercado.
            O texto cita Kramer quando diz que a criança não existe em si mesma, mas em função da sociedade de classes. Isso significa um indivíduo de pouca idade inserido numa situação de classe social.
            A abordagem de Dahlberg, Moss e Pence declara não existir algo como a criança e a infância, esperando em estado essencial, por uma definição do que as crianças são e devem ser. Isso nos levar a refletir sobre a necessidade de romper paradigmas, com um outro olhar e uma formar diferente de pensar a infância. Isso implica romper com concepções marcantes na construção da criança, como “vir-a-ser, tabula rasa”, “inocência em forma humana”, “adulto em formação” e outros conceitos que ressaltam a incompletude da criança.
            Larrosa lança o desafio de um pensamento em busca da compreensão da criança, propondo uma ruptura com perspectivas marcantes na história dessa categoria social. Esse autor destaca o olhar a infância como um outro de forma que inquiete as nossas certezas e o nosso saber não a alcança.
            Souza e Pereira afirmam que ao reconhecer a diferença no outro, recuperamos a dignidade de nos reconhecermos nos nossos limites.
            Segundo a autora do texto, tomar a criança como um outro requer concebê-la como um ser inteiro em si mesmo, capaz de expressar seus sentimentos, idéias e desejos. Dahlberg, Moss e Pence concordam com essa idéia e concebem a criança como um ser único, completo e individual, com identidade própria , participante da vida social e cultural. A  criança dever ser ouvida e ser considerada.
            Entretanto, Larrosa pondera que por mais que a infância nos mostre uma face visível, conserva um tesouro oculto significando que jamais poderemos esgotá-la.
            Sendo assim, entender a criança como um “outro” é vê-la a partir de uma multiplicidade de imagens e realidades sociais. Portanto, devemos optar por abrir espaços para que as crianças se manifestem e nos apresentem o seu mundo.
            A autora aborda várias concepções sobre infância e criança, permitindo assim vislumbrar a trajetória das abordagens ao longo da história. Com maestria ela apresenta visões  surgidas e depois vai conduzindo uma desconstrução de paradigmas acerca da criança e da infância, na medida em que deixa claro não se tratar apenas de uma fase da vida e de um ser humano em eterno devir, como um futuro que nunca chega e quando chega, sofreu deformações ao longo de sua trajetória.
            Galvão consegue nos tirar da posição de seres completos, enquanto adultos, prontos para moldar, disciplinar, inculcar conceitos na criança, para um posicionamento de profunda reflexão acerca do ser criança, com seus sentimentos, relacionamentos, numa abertura em que o adulto se descortina para conhecer a criança, ouvi-la e ser conduzido ao universo infantil, inserido num contexto social e cultural.


GALVÃO, Andréa Studart Corrêa. Educação Moral e Qualidade na Educação Infantil: desafios ao professor. Dissertação de Mestrado. Adapt. Brasília, UnB: 2005.